Cães-guia: confiar cegamente os passos a amigos de quatro patas


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São os olhos dos donos. Humanizam-nos. O i foi conhecer a única escola de cães para cegos em Portugal

Nuno está sentado ao topo da mesa do restaurante, os olhos baços e claros postos no prato. Inclina-se para a esquerda e segreda qualquer coisa ao ouvido do Noddy. “Calma, está tudo bem”, sussurra.
Noddy é um cão-guia. Faz hoje dois anos que o labrador bege e o informático se tornaram “companheiros do dia-a-dia”. A 17 de Fevereiro de 2008, “estava ansioso para conhecer o cão e para saber como era trabalhar com um ser vivo. Estava nervoso, não sabia como brincar com ele”. Mas num instante, as dúvidas desapareceram. “Achei o Noddy um cão simpático, alegre. Mas não demasiado alegre. Tal como eu”, confessa.
“Se eu tenho um cão lento, e um cego de andamento médio-rápido, a dupla nunca irá conseguir cumprir-se. E se a dupla não estiver feliz, não resulta”, explica Vítor Costa, educador de cães-guia desde o “dia zero” da escola de Mortágua. A “dupla” foi um conceito criado para a escola contar com o apoio da Segurança Social, logo no processo de fundação. “Foi feito um acordo atípico com a Segurança Social, baseado em duplas cego-cão. Não podiam subsidiar cães. Em termos práticos, sempre que um cão é entregue, é formada uma dupla”, esclarece o presidente da direcção da escola, João Pedro Fonseca. O educador complementa. “A dupla só está formada passados seis meses. O cão perde muito conhecimento para colocar-se numa nova realidade”, acrescenta Vítor. Mas o processo é recíproco.
Aprender com os erros “É como na faculdade, muita teoria. Aprendemos depois, no terreno”, explica Vítor. A base da confiança entre as duplas não é imediata. É fundamental. “Constrói-se através dos erros apresentados e solucionados. Por exemplo, um cão vai no passeio mas desvia-se para a estrada. O cego insiste em continuar. Se o cão tem razão em evitar o percurso, o cego passa a confiar nele. Cria-se uma dupla interdependente”, sublinha. Por isso, Vítor propõe um teste: deixar o Noddy com ele – educador do cão-guia – enquanto Nuno fica do outro lado da porta. “Quando me viu, o Noddy fez uma grande festa. Mas se fica longe do companheiro, cola-se à porta e chora. Cria-se uma dependência monstruosa”, descreve.
Noddy está de regresso – com Nuno – à escola de Mortágua, distrito de Viseu, para uma “reciclagem”. Durante uma semana o educador vai tentar perceber por que razão o cão andava nervoso e ansioso. “O cão não diz que está a ter um desvio comportamental, mas o dono percebe. Estamos a tratar do problema”, conta ao i.
O pedido do Nuno à escola de cães-guia surgiu depois de um “acidente grave”. Há dois anos, o informático ganhou um companheiro. “As referências com a bengala são específicas, e no início andamos um bocado à toa. Não é fácil alterar a nossa maneira de agir. Mas correu tudo bem”, recorda Nuno. Vítor sublinha que as primeiras recomendações da escola após a entrega de um cão-guia a um cego são de “manter o mapa mental”. A confiança constrói-se “por patamares”, sublinha. “O lado prático, que se sente, é não cair, fugir aos obstáculos. Friamente, o cão é um meio de locomoção. Permite independência, autonomia, segurança e integridade física nos percursos”, analisa o educador. E preparar um cão para esse papel não é tarefa simples.
Em média, são educados todos os anos 40 cães labrador – raça com boa capacidade de trabalho, de esforço e com uma fidelidade incontornável ao homem – na escola de Mortágua, mas só 12 são entregues a cegos e passam a guiar-lhes os passos. A entrega é feita quando o cachorro tem aproximadamente dois anos. Daí tratar-se de um processo tão moroso. A formação custa entre 17 e 18 mil euros por cão, sendo os custos assegurados em 60% pela Segurança Social. O restante vem de acções de solidariedade social e apadrinhamentos.
“Há escolas que apadrinham os nossos cães e promovem actividades para cobrirem os custos de educação, alimentação e saúde. Os cães são gratuitos para os cegos”, explica o director. João Pedro Fonseca não esconde, contudo, o desejo de crescer. “Foi precisamente pelas necessidades que começámos a pensar a escola. Mas o grande problema é responder às necessidades. Os cães são a matéria-prima para chegar ao objectivo, que é a pessoa cega. A primeira cadela – a Camila – foi entregue em 1999. Começámos com oito. Agora são 12 a 14 cães por ano”, esclarece.

Humanizar os homens “O cão-guia tem um papel preponderante a percorrer os trajectos diários. Como é que o ensino? Incentivando-o a trabalhar, dando estímulos na trela”, conta Nuno. O discurso parece o mesmo de Vítor. É quase. “Como mostro a um cão que, geneticamente tem escrito “pombas é para comer”, que não pode fazê-lo? Trabalhando a paciência. Repetindo gestos. Mostrando que é algo que ele deseja, mas que tem que se controlar e procurar outro incentivo que compense aquele”, explica. Por isso, às predisposições genéticas intrínsecas “controladas pela escolha da fêmea e do macho”, junta-se o processo de sociabilização, em famílias de acolhimento. Depois de nascerem na escola, os “pupilos”, como lhes chama Vítor, vão viver um ano com famílias “escolhidas pela escola”.
Em casas “normais”, os cães vão aprender a ter regras, como não mexer no caixote do lixo ou não subir para o sofá. “É na família que o cachorro vai suportar os puxões das crianças, as brincadeiras que o tornam um cão mais afável, mais meigo, mais predisposto. É lá que vai criar um relógio biológico, habituar-se ao barulho das motas, das sirenes, da ambulância, do carro, do camião. E a família vai estar preparada para reagir, dar formação a esse cachorro. Sociabilizá-lo. Humanizá-lo”. Vítor considera esta uma fase preponderante na educação do cão-guia. E é dessa humanização que nasce também a humanização da pessoa. Do cego. “Deixei de ser o coitadinho com a bengala”, conta Nuno.
Vítor complementa: “Além do mal de serem portadoras de uma deficiência, são normalmente pessoas excessivamente do mundo delas. Excessivamente recatadas, não no sentido de senhoras do seu nariz, mas no sentido de não eram abertas à novidade. O cão proporciona-lhes conhecer pessoas, tomar contacto com novas realidades. Mostra-lhes o outro lado”. Numa simples viagem de comboio entre a estação de Barcarena e do Oriente, em Lisboa, a bengala condicionava o comportamento de Nuno, que era de total silêncio. “Quase que apostava que ele não dizia nada a ninguém. Com o Noddy, basta alguém comentar ‘que cão lindo que você leva aí’, e ele responde”, garante Vítor Costa.
Nuno confessa já não conceber o mundo de outra forma. “Quando saio sem o Noddy parece que me falta alguma coisa”. O cão e ele são uma dupla. Aquela equipa cúmplice, desejada. Além do objectivo frio de o cão ser “o meio de locomoção do cego”. Vítor Costa remata: “O lado prático permite independência, autonomia, segurança e integridade física nos percursos. O lado afectivo, é ser os olhos dele. É ganhar olhos. Obstáculos aprofundam mais a deficiência. O cão são uns olhos grandes, grandes, que lhe proporcionam levar uma vida com mais naturalidade.”


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